Na rampa de acesso à entrada, cruza comigo um rapaz com a mão enfaixada. Placas robustas de metal prezas na parede trazem inscritos os nomes 'Secretaria de Higiene e Saúde' e 'Departamento Municipal de Assistência à Infância e à Maternidade'. Levo um susto quando, ao entrar, de pronto me atende o segurança. Ele pergunta alto: “O que você quer?”. “Fazer a carteirinha do SUS”, respondo. Pelo uniforme, vê-se que é de uma empresa privada. Mas ajuda em outras funções além da sua. É ele quem informa onde posso aguardar e quais documentos devo ter em mãos: “Cópia do RG, CPF e comprovante de residência”.
Uma mulher de rosto magro, óculos e rabo de cavalo mexe no mouse do computador enquanto responde às perguntas de um casal. Os dois, de pé, do lado de cá do balcão. O homem é quem mais fala:
“Quantos médicos têm?”
“São quatro. Mas um médico atende.”
“E os auxiliares?”
“Cada médico tem um auxiliar.”
“E o auxiliar atende?”
“Primeiro passa pelo auxiliar depois vai para a consulta.”
Meu objetivo é fazer uma reportagem. Impressiono-me com o sujeito questionador, assertivo em suas perguntas. Deveria agir assim? E ir além, anunciar que estou fazendo uma apuração jornalísitica, que procuro saber tudo que acontece com o serviço de saúde oferecido ali para as pessoas? Me limito a observar. E a esperar e puxar conversa.
Impressora quebrada
O homem falador não é jornalista - mas poderia ser. Tem história para contar, e é isso que ele logo começaria a fazer. Está em São Paulo, na casa de um primo, recém chegado de Vargem Grande do Sul, cidade a 160 km de Campinas. A mulher está grávida. Imagino que a presença no posto é mais por causa dela, apesar dele também ter pedido uma carteirinha do SUS. O casal já tinha passado por lá na semana anterior, mas ainda tentava uma consulta com o médico generalista. A surpresa de hoje é que a carteirinha do SUS que eles tinham, feita há apenas um mês em Vargem Grande do Sul, não possuía um número válido e não serviria para atendimento em São Paulo. Foi o que informara a atendente. Antes de agendarem uma consulta, precisariam fazer outra: “Engraçado que é sistema 'único' né? Se é único, tinha que valer aqui, na Paraíba...”.
Outro problema foi que, sem imaginar que não aceitariam sua carteirinha, a mulher não levara os documentos para fazer um novo cadastro. Com bebê na barriga, não queria voltar até a casa em que se hospedavam para buscar CPF, RG, pois teria de subir de novo uma grande ladeira, o que lhe seria muito penoso. Contudo, fora o recém-descoberto inútil cartão do SUS, seu marido tinha os documentos na carteira, o que possibilitava que a atendente fizesse um cadastro para ele. A carteirinha normalmente fica pronta na hora. Mas hoje não seria assim. A mulher sentada em frente ao computador avisa que só poderia entregar num outro dia porque a impressora estava com defeito.
“Mas vamos ser atendidos?”
“Vão sim. Vou fazer o cadastro e te dar o número. Depois você vem aqui e imprime sua carteirinha.”
E antes de avisar que eles poderiam se sentar para aguardar a consulta e o término do cadastro, ela informa mais um pequeno inconveniente.
“É que está demorando um pouquinho para cadastrar porque o sistema está lento.”
Manhã no Posto
São dez horas da manhã. Pessoas passam pra lá e pra cá nos dois curtos e apertados corredores em volta do balcão. Na sala de espera, um tanto apertada, quase todos os lugares estão ocupados. O posto está cheio. Funcionários, aparentemente, são só o segurança, a mulher do balcão e duas moças que andam pra lá e pra cá, entram e saem de salas, vestindo jaleco branco com um brasão inscrito 'Faculdade de Medicina'.
Enquanto mexe no mouse e fala com o casal, a atendente, que usa um jaleco verde fino e desgastado, é interrompida vez ou outra por uma das moças de jaleco branco, a toda hora pegando prontuários e papéis nas prateleiras ao fundo. No curto período entre atender o casal e dar atenção às outras funcionárias, a requisitada mulher virou-se para mim, atenciosa, mas com aparente ansiedade.
“Pois não, e você?”
“Quero fazer minha carteirinha do SUS.”
“Onde você mora?”
“Na rua Harmonia (uma travessa da rua do posto).”
“Ah, sim. Trouxe os documentos?”
“Sim.”
“A única coisa é que a impressora está quebrada e não estou conseguindo imprimir. Você pode me passar as cópias dos documentos que eu vou te dar o número, daí outro dia você imprime.”
“Ok.”
“E aguarde só um momentinho. Como eu falei pra eles, o sistema está lento. Mas eu já faço a sua.”
“E como funciona para eu marcar uma consulta?”
“Você primeiro faz a carteirinha. Depois o agente comunitário vai até a sua casa, faz o cadastro da sua família. Aí você pode marcar a consulta.”
“E quanto tempo demora?”
“De um a 15 dias. Vou já colocar seu nome no caderno.”
Ela corre a cadeira para traz e pega numa das prateleiras um caderno. É possível notar uma camada grossa de folhas preenchidas, pelo encharcado de tinta de caneta. Lá ela anota o meu nome e o da minha mãe, conforme informei. Enquanto escreve, esclarece que qualquer pessoa da casa pode receber o agente. Se não tiver ninguém, ele deixa recado com um número de telefone para a pessoa ligar e agendar a visita. Antes, não é possível agendar nada.
A Foto no Orkut
Também na espera, o homem puxa conversa, contando sobre os absurdos dos postos de saúde de sua cidade, Vargem Grande do Sul. Diz que, se fossem passar os médicos numa peneira, poucos ficariam. Os melhores são os que vêm de fora, do Rio de Janeiro. E no hospital costuma ser melhor o serviço. A mulher concorda. Ele conta que, no posto, a demora para um atendimento é enorme:
“Você tem que chegar às sete da manhã, depois voltar às nove. Se você mora longe, fica rodando por ali mesmo. O médico chega às onze e começa a atender ao meio-dia. Uma vez, só fui ser atendido a uma da tarde. Tinha treze pessoas para ele atender quando chegou”.
O motivo da reclamação com os médicos é o tratamento por eles dispensado. Um complementando o outro, o casal critica o fato de alguns doutores nem sequer olharem no rosto do paciente. Ele lembra que, nesse dia de longa espera, a consulta não durou mais do que seis minutos. Além do atendimento rápido e pouco caloroso, casos anedóticos também são rememorados. Como a história de uma médico - segundo o homem, “uma figura” - que reagiu de maneira bastante inusitada ao se deparar com um dos cachorros que frequentemente entram no posto.
“O cachorro estava sentado no banco. Daí o doutor, quando viu, pulou o balcão, abraçou o cachorro e tirou uma foto! E depois colocou no Orkut!!!”
O segurança grita: “Fernando!”. Vou até o balcão. A funcionária entrega as folhas com as xérox dos documentos e um pedaço de papel com o meu número SUS. Volto ao banco onde está o casal para terminar a conversa, enquanto guardo os papéis na pasta e depois na mochila. De repente, fora de seu posto, a atendente vem até mim.
“Viu, será que eu não dei a agenda da médica junto com os papéis para você, por engano?”
“Deixe me ver. Esses grampeados?”
“São esses! Obrigado!”
“Ainda bem que não fui logo embora”, brinco. Nessa hora, o homem falava que em Vargem Grande do Sul as ambulâncias são uma maravilha. “Quando alguém chama, chegam na hora. Mas nem tudo é perfeito”, diz, resignado, certamente referindo-se aos problemas da saúde de sua cidade que me contava. O casal segue esperando pelo atendimento. Eu, me despeço e vou embora. “Falou, garoto! A gente se vê”, diz sorridente o contador de histórias.
Aguardarei o agente ir até a minha casa. Antes da visita de hoje, tinha me informado sobre quais documentos levar para fazer a carteirinha. Nesse primeiro dia de contato com a rede pública de saúde de São Paulo, demorei cerca de meia-hora no postinho da Vila Madalena.
Belo texto! Nada mal para um começo do seu trabalho, pode imaginar que histórias inacreditáveis e curiosas não faltarão! Bem vindo à rede pública de saúde! Aviso: cuide-se, é uma área perturbadora, onde a loucura não tem medo de se apoderar. Potencial não lhe falta, e o campo é intrigante, mãos à obra!
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