sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Vila Madalena - Espera (será que este título se repetirá neste blog?)

Dois dias depois, fui buscar minha carteirinha do SUS. A atendente de óculos e jaleco verde estava lá. Lembro a ela que quando fiz o cadastro, não foi possível imprimir a carteirinha porque a impressora estava quebrada. Passo meu número de registro que estava anotado num papel, ela digita no computador e... “Não está imprimindo de novo. Acho que é com você, viu?!”. “Deve ser. Ela não quer fazer a carteirinha pra mim”, respondi.

Alguns ajustes no cartucho e finalmente sai a etiqueta adesiva com meus dados impressos. Ao meu lado, uma mulher tenta marcar uma consulta, pedindo informações para a sempre requisitada atendente. “Só lá para o meio de março!? E eu vou ter que ficar com a dor!?”, reage a paciente ao ser informada que a data mais próxima disponível para um atendimento médico estava uns 15 dias distantes. “Você vê, vim aqui na semana passada. Se já tivesse marcado, não precisaria esperar tanto”, diz para mim, puxando conversa. Para seu alívio, uma data mais próxima para a consulta é encontrada no caderno.

Com carteirinha na mão e esperando pela visita da agente comunitária que irá até a minha casa, fico pensando o porque da realização de uma reportagem ali, num posto de saúde. As coisas funcionam, a mulher conseguiu sua consulta mais cedo como queria, e problemas com uma impressora podem acontecer em qualquer lugar. Todavia, muitos diriam que motivos não faltam para se averiguar o que acontece nos serviços públicos de saúde de São Paulo. Filas para conseguir uma consulta, postos lotados e dificuldade de acesso a hospitais devido a grandes distâncias são reclamações que já ouvi. Não sei se coisa assim acontece com frequência nesse posto que visito pela segunda vez.

A atendente de jaleco verde está sempre lá, atenciosa e super requisitada. E as reclamações dos pacientes no balcão do posto em que ela trabalha também. Dois dias atrás, o homem com a mulher grávida querendo um médico. Agora, a mulher que quase não consegue data próxima para uma consulta. 'Espera' parece ser a sina do usuário da saúde pública. Algo que também ouço muito dizer.

Conto minha experiência nesses rápidos momentos no postinho da Vila para minha irmã, estudante de psicologia que fez estágio em alguns postos e hospitais públicos da cidade. “Olha que este aí que você foi é cinco estrelas, comparado com outros que existem por aí”, advertiu ela.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Vila Madalena - A impressora quebrada, o sistema lento e a história do médico que tirou foto com um cachorro da rua e colocou no Orkut


Na rampa de acesso à entrada, cruza comigo um rapaz com a mão enfaixada. Placas robustas de metal prezas na parede trazem inscritos os nomes 'Secretaria de Higiene e Saúde' e 'Departamento Municipal de Assistência à Infância e à Maternidade'. Levo um susto quando, ao entrar, de pronto me atende o segurança. Ele pergunta alto: “O que você quer?”. “Fazer a carteirinha do SUS”, respondo. Pelo uniforme, vê-se que é de uma empresa privada. Mas ajuda em outras funções além da sua. É ele quem informa onde posso aguardar e quais documentos devo ter em mãos: “Cópia do RG, CPF e comprovante de residência”.

Uma mulher de rosto magro, óculos e rabo de cavalo mexe no mouse do computador enquanto responde às perguntas de um casal. Os dois, de pé, do lado de cá do balcão. O homem é quem mais fala:

“Quantos médicos têm?”
“São quatro. Mas um médico atende.”
“E os auxiliares?”
“Cada médico tem um auxiliar.”
“E o auxiliar atende?”
“Primeiro passa pelo auxiliar depois vai para a consulta.”

Meu objetivo é fazer uma reportagem. Impressiono-me com o sujeito questionador, assertivo em suas perguntas. Deveria agir assim? E ir além, anunciar que estou fazendo uma apuração jornalísitica, que procuro saber tudo que acontece com o serviço de saúde oferecido ali para as pessoas? Me limito a observar. E a esperar e puxar conversa.