terça-feira, 29 de março de 2011

Vera: "Faz mais de um ano que não consigo um atendimento médico"

No final do ano passado, ouvi pela primeira vez relatos de pessoas que estavam sendo impedidas de receber atendimento médico no posto de saúde da Vila Madalena. Quem reclamava era gente que trabalha na região e costumava utilizar o posto da Vila para a assistência médica que necessitasse. Essas pessoas começaram a ser avisadas que não poderiam mais utilizar os serviços prestados no local, e que deveriam procurar as unidades de saúde do bairro em que moravam se quisessem marcar uma consulta ou realizar um exame médico.

A regra aplicada era que cada cidadão deveria utilizar o posto de saúde do seu bairro. Mas isso gerava sérios inconvenientes para quem trabalha longe de casa. Os empregados do comércio, prédios e casas de família da Vila Madalena, em sua grande maioria, saem cedo para o serviço, antes da abertura do posto, e voltam quando ele já está fechado.

Essa situação, com certeza um problema para quem a vivencia, foi uma das coisas que despertou em mim o interesse em realizar um reportagem sobre os serviços de saúde da cidade. Nesta segunda-feira conversei com a Vera Lúcia Doras dos Santos, de 51 anos, que trabalha como empregada doméstica num prédio na Vila Madalena. Ela tem dois empregos. De manhã trabalha num escritório na avenida Nove de Julho. Entre a manhã e a tarde dá conta do serviço no apartamento. E no final da tarde, termina o dia de trabalho no escritório. Mora no Jardim João XXIII, zona oeste de São Paulo, e vai de ônibus para o trabalho.

Ela contou um pouco como foi essa mudança no atendimento dos postos de saúde e deu sua opinião sobre os serviços de saúde em geral.

Faz mais de um ano que não consigo um atendimento médico. Tenho que fazer um check-up, exame de sangue, de urina, porque estou com mais de 50 anos. E tenho problema de mioma, a cada seis meses preciso passar por consulta médica. Mas não consigo encaminhamento. Todo problema é o “bendito” encaminhamento. A espera é muito grande. E você nunca sabe para onde vão te encaminhar.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Reportagem entrará em nova fase

Dois dias depois de reclamar no posto, a agente de saúde passou na minha casa. Porém, não pude recebê-la. Estava com pressa para sair para o trabalho. Combinei com ela que voltasse na quarta-feira de manhã. Continuarei indo ao posto de saúde da Vila para dar prosseguimento às consultas médicas que pretendo fazer. O que houver de interessante e importante para a reportagem, relatarei aqui. Mas agora, focarei nas histórias de outros personagens, pacientes e cidadãos que buscam socorro para problemas de saúde nos serviços públicos e privados da cidade. A reportagem entra em fase de prospecção de gente que tenha boas histórias para contar.

A ideia desse trabalho não é colocar o repórter no centro da reportagem. Relato aqui minha experiência como paciente a título de comparação com outras histórias. Penso que, talvez, utilizando o serviço público de saúde, possa conhecer melhor o seu funcionamento. Com a saúde privada já tive contato bem próximo. Fui conveniado da Cabesp, plano de saúde criado para atender os funcionários do Banespa, como meu pai Carlos.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Vila Madalena - A agente pulou meu nome

Mais de 15 dias se passaram, e não recebi a visita da agente de saúde em casa. Fui até o posto perguntar o que aconteceu. A atendente de jaleco verde lembrou de mim, e também se surpreendeu por eu não ter recebido a visita. “Deve ter sido porque você estava na agenda da funcionária que foi demitida”, disse ela. A moça dispensada não era concursada, e sim selecionada.

A atendente vai e volta folheando o caderno, até encontrar meu nome. Estava na lista de casas a visitar de uma agente que continuava no posto. “Tá aqui. 'Fernando'. Ela pulou seu nome”. Na frente de cada endereço, um 'ok' ou um 'não estava', 'retornar amanhã' é grafado pela agente depois que é feita a visita. A mulher anotou no campo com o meu nome a seguinte frase: “já retornou ao posto. Visitar no período da manhã”. Colocou também meu telefone, o que não fora permitido na ocasião em que fiz o agendamento pela primeira vez.

Reparo no quadro de avisos, um mural grande na parede oposta ao balcão de atendimento. De forma bem organizada, com folhas de papel sulfite inseridas em plásticos cuidadosamente pregados um ao lado do outro, de cima a baixo no mural, diversos detalhes do funcionamento do posto são divulgados. Uma das folhas indica a produção da unidade no mês, em número de consultas médicas, odontológicas, distribuição de medicamentos, etc. O posto da Vila teve mais de mil consultas em fevereiro. Outras folhas mostram dados do quadro de funcionários, estrutura das equipes médicas – são quatro, cada uma com médico, enfermeiro e auxiliar, dias de coletas de exame e telefones para dúvidas, sugestões e reclamações.

Um homem brincalhão diverte a atendente enquanto diz que precisa tomar uma 'injeção no bumbum'. Sempre cheio, o posto de saúde concentra histórias. O andar apressado e o silêncio distraído das pessoas do lado de fora contrasta com a conversa alta de algum paciente no balcão de atendimento, com um zunzunzum e com o papear de quem vira e mexe vai puxando conversa, no seu interior. Ao entrarmos, nos deparamos com a vastidão de histórias. Algumas delas esse trabalho pretende contar.  

sábado, 12 de março de 2011

Colabore com o repórter; faça uma reportagem

“Ele não é jornalista, mas poderia ser.” Foi essa a reflexão que fiz ao ver o cidadão no posto de saúde despejando uma série de perguntas sobre o atendimento prestado ali. A 'entrevistada' era a funcionária que recebia as pessoas. E interessados em tais explicações certamente estariam todos os cidadãos que utilizam o serviço público de saúde.  

Não destaco à toa tal reflexão. Na realidade, ela deveria ser assim: “ele não é o jornalista, mas pode reportar informações que adquiriu e problemas que testemunhou de maneira a amplificar o seu relato, tornando-o conhecido pela sociedade”. Como? Bem, o depoimento do cidadão poderia embasar uma reportagem jornalística de um grande jornal, por exemplo, na qual ele seria a 'fonte' da notícia. Mas o que eu dizia era que ele próprio poderia ser 'o jornalista'. É que diferente do que seria o esperado na imprensa tradicional (a TV, o rádio, o jornal, a revista), penso na atividade jornalística feita utilizando-se os recursos da internet, com os quais é possível interagir e participar na elaboração da reportagem. Que tal a ideia : “um  blog/site/rede para escrever a mão, uma história para contar na cabeça?”.

O que quero dizer é que este trabalho não pretende se limitar às observações de um repórter, que produz a notícia apenas a partir das fontes que descobre no corpo-a-corpo no local onde é feita a reportagem. Mais do que um esforço jornalístico de uma só pessoa, o que tentarei colocar em prática é uma experiência de reportagem na qual todo cidadão que entrar em contato com este meio de informação poderá interagir e participar da construção da notícia. Em suma, gostaria de experimentar, nesta reportagem sobre os serviços de saúde em São Paulo, algumas práticas relacionadas ao que se tem chamado de jornalismo colaborativo.

Se quiser parar a leitura por aqui, peço que volte a este blog mais tarde, veja se o que estou escrevendo sobre serviços de saúde é de seu interesse, se tem algo que desejaria contar, e escreva no espaço para comentários! E para entender um pouco mais sobre trabalho, continue a leitura deste post.