terça-feira, 31 de maio de 2011

Campo Limpo - "Estamos cansados de Saber"

Entrada do PS do Hospital do Campo Limpo, na rua Teresa 
Mouco de Oliveira, esquina com a Estrada de Itapecerica
Ronaldo está internado no Hospital do Campo Limpo há alguns dias. Ele quebrou o braço e precisa passar por uma cirurgia ortopédica. Acomodado numa cama da ala de emergência do hospital municipal, ele não tinha, até sábado (dia 28 de maio), uma previsão de quando seria atendido. Um médico disse apenas que ele teria de esperar por mais seis dias para ser transferido para outro centro cirúrgico, onde seria realizada a cirurgia.

O relato sobre o caso do Ronaldo foi feito por Vera Doras dos Santos, sua namorada. A Vera tinha me dado um depoimento sobre os serviços dos postos de saúde que utiliza e sabia que eu estava atento aos problemas dessa área. Na quinta-feira, dia 26, ela me procurou para contar o que acontecia com o Ronaldo. Estava indignada com o que vira na noite em que visitou o namorado. "Ele está num quarto com várias pessoas. As funcionárias anotam as coisas num papel toalha, dizendo que é mais fácil fazer registros assim. Dois homens entraram baleados, com todo mundo olhando. É um caos, e o Ronaldo não sabe quando vai sair de lá". Eu disse para ela que poderia fazer uma visita ao Ronaldo. "Vai lá, ele está com um celular, dá para tirar umas fotos. E quem sabe não resolvem o problema dele".

terça-feira, 12 de abril de 2011

Carta aos (zero) leitores deste blog

Placa exposta no saguão da estação da Sé
Na semana passada, acompanhei o protesto dos médicos contra os planos de saúde. Briga de titãs. Os médicos reclamam dos baixíssimos pagamentos que recebem por consulta e fazem graves denúncias sobre intervenções das operadoras no tratamento de pacientes. Os planos dizem que os reajustes nos honorários foram feitos acima da taxa de inflação.

Uma reportagem da revista Exame publicada recentemente mostrou como empresas que prestam serviços de assistência à saúde têm vivido um bom momento nos negócios. Para os médicos, o que está por trás dessa degradação na relação com as operadoras de saúde é a lógica desenfreada pelo lucro seguida por elas.

No dia 7 de abril, enquanto os médicos se manifestavam diante da Catedral da Sé, centenas de pessoas esperavam mais de três horas numa fila gigante por um exame oftalmológico. Debaixo de sol forte, elas participavam do multirão de atendimento médico realizado em comemoração do Dia Mundial da Saúde. O evento reunia no Pátio do Colégio instituições como SUS, Ministério e secretarias da Saúde e hospitais particulares. Quando perguntei para algumas pessoas que estavam na fila para o teste de visão o que as levava até lá, todos respondiam que era por ser mais fácil conseguir um encaminhamento para um tratamento ou uma consulta ali do que no posto de saúde.

Na Sé, literalmente embaixo do protesto do médicos, no saguão da estação do metrô, um desses quiosques de comércio de serviços ostentava a placa em que se lia, com letras grandes e vermelhas: "Aqui Tem Plano de Saúde". O vendedor, integrante de uma corretora de planos, me explicou como funcionava o serviço. "Se fecharmos o contrato hoje, coloco a data de ontem no contrato e você já está coberto". As vantagens enchem são de encher os olhos. "Se for para fazer exame com algum credenciado e não quiser esperar a carência de 30 dias, é só adiantar o pagamento do carnê do próximo mês, e você faz o exame na hora", completou o corretor.

terça-feira, 29 de março de 2011

Vera: "Faz mais de um ano que não consigo um atendimento médico"

No final do ano passado, ouvi pela primeira vez relatos de pessoas que estavam sendo impedidas de receber atendimento médico no posto de saúde da Vila Madalena. Quem reclamava era gente que trabalha na região e costumava utilizar o posto da Vila para a assistência médica que necessitasse. Essas pessoas começaram a ser avisadas que não poderiam mais utilizar os serviços prestados no local, e que deveriam procurar as unidades de saúde do bairro em que moravam se quisessem marcar uma consulta ou realizar um exame médico.

A regra aplicada era que cada cidadão deveria utilizar o posto de saúde do seu bairro. Mas isso gerava sérios inconvenientes para quem trabalha longe de casa. Os empregados do comércio, prédios e casas de família da Vila Madalena, em sua grande maioria, saem cedo para o serviço, antes da abertura do posto, e voltam quando ele já está fechado.

Essa situação, com certeza um problema para quem a vivencia, foi uma das coisas que despertou em mim o interesse em realizar um reportagem sobre os serviços de saúde da cidade. Nesta segunda-feira conversei com a Vera Lúcia Doras dos Santos, de 51 anos, que trabalha como empregada doméstica num prédio na Vila Madalena. Ela tem dois empregos. De manhã trabalha num escritório na avenida Nove de Julho. Entre a manhã e a tarde dá conta do serviço no apartamento. E no final da tarde, termina o dia de trabalho no escritório. Mora no Jardim João XXIII, zona oeste de São Paulo, e vai de ônibus para o trabalho.

Ela contou um pouco como foi essa mudança no atendimento dos postos de saúde e deu sua opinião sobre os serviços de saúde em geral.

Faz mais de um ano que não consigo um atendimento médico. Tenho que fazer um check-up, exame de sangue, de urina, porque estou com mais de 50 anos. E tenho problema de mioma, a cada seis meses preciso passar por consulta médica. Mas não consigo encaminhamento. Todo problema é o “bendito” encaminhamento. A espera é muito grande. E você nunca sabe para onde vão te encaminhar.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Reportagem entrará em nova fase

Dois dias depois de reclamar no posto, a agente de saúde passou na minha casa. Porém, não pude recebê-la. Estava com pressa para sair para o trabalho. Combinei com ela que voltasse na quarta-feira de manhã. Continuarei indo ao posto de saúde da Vila para dar prosseguimento às consultas médicas que pretendo fazer. O que houver de interessante e importante para a reportagem, relatarei aqui. Mas agora, focarei nas histórias de outros personagens, pacientes e cidadãos que buscam socorro para problemas de saúde nos serviços públicos e privados da cidade. A reportagem entra em fase de prospecção de gente que tenha boas histórias para contar.

A ideia desse trabalho não é colocar o repórter no centro da reportagem. Relato aqui minha experiência como paciente a título de comparação com outras histórias. Penso que, talvez, utilizando o serviço público de saúde, possa conhecer melhor o seu funcionamento. Com a saúde privada já tive contato bem próximo. Fui conveniado da Cabesp, plano de saúde criado para atender os funcionários do Banespa, como meu pai Carlos.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Vila Madalena - A agente pulou meu nome

Mais de 15 dias se passaram, e não recebi a visita da agente de saúde em casa. Fui até o posto perguntar o que aconteceu. A atendente de jaleco verde lembrou de mim, e também se surpreendeu por eu não ter recebido a visita. “Deve ter sido porque você estava na agenda da funcionária que foi demitida”, disse ela. A moça dispensada não era concursada, e sim selecionada.

A atendente vai e volta folheando o caderno, até encontrar meu nome. Estava na lista de casas a visitar de uma agente que continuava no posto. “Tá aqui. 'Fernando'. Ela pulou seu nome”. Na frente de cada endereço, um 'ok' ou um 'não estava', 'retornar amanhã' é grafado pela agente depois que é feita a visita. A mulher anotou no campo com o meu nome a seguinte frase: “já retornou ao posto. Visitar no período da manhã”. Colocou também meu telefone, o que não fora permitido na ocasião em que fiz o agendamento pela primeira vez.

Reparo no quadro de avisos, um mural grande na parede oposta ao balcão de atendimento. De forma bem organizada, com folhas de papel sulfite inseridas em plásticos cuidadosamente pregados um ao lado do outro, de cima a baixo no mural, diversos detalhes do funcionamento do posto são divulgados. Uma das folhas indica a produção da unidade no mês, em número de consultas médicas, odontológicas, distribuição de medicamentos, etc. O posto da Vila teve mais de mil consultas em fevereiro. Outras folhas mostram dados do quadro de funcionários, estrutura das equipes médicas – são quatro, cada uma com médico, enfermeiro e auxiliar, dias de coletas de exame e telefones para dúvidas, sugestões e reclamações.

Um homem brincalhão diverte a atendente enquanto diz que precisa tomar uma 'injeção no bumbum'. Sempre cheio, o posto de saúde concentra histórias. O andar apressado e o silêncio distraído das pessoas do lado de fora contrasta com a conversa alta de algum paciente no balcão de atendimento, com um zunzunzum e com o papear de quem vira e mexe vai puxando conversa, no seu interior. Ao entrarmos, nos deparamos com a vastidão de histórias. Algumas delas esse trabalho pretende contar.  

sábado, 12 de março de 2011

Colabore com o repórter; faça uma reportagem

“Ele não é jornalista, mas poderia ser.” Foi essa a reflexão que fiz ao ver o cidadão no posto de saúde despejando uma série de perguntas sobre o atendimento prestado ali. A 'entrevistada' era a funcionária que recebia as pessoas. E interessados em tais explicações certamente estariam todos os cidadãos que utilizam o serviço público de saúde.  

Não destaco à toa tal reflexão. Na realidade, ela deveria ser assim: “ele não é o jornalista, mas pode reportar informações que adquiriu e problemas que testemunhou de maneira a amplificar o seu relato, tornando-o conhecido pela sociedade”. Como? Bem, o depoimento do cidadão poderia embasar uma reportagem jornalística de um grande jornal, por exemplo, na qual ele seria a 'fonte' da notícia. Mas o que eu dizia era que ele próprio poderia ser 'o jornalista'. É que diferente do que seria o esperado na imprensa tradicional (a TV, o rádio, o jornal, a revista), penso na atividade jornalística feita utilizando-se os recursos da internet, com os quais é possível interagir e participar na elaboração da reportagem. Que tal a ideia : “um  blog/site/rede para escrever a mão, uma história para contar na cabeça?”.

O que quero dizer é que este trabalho não pretende se limitar às observações de um repórter, que produz a notícia apenas a partir das fontes que descobre no corpo-a-corpo no local onde é feita a reportagem. Mais do que um esforço jornalístico de uma só pessoa, o que tentarei colocar em prática é uma experiência de reportagem na qual todo cidadão que entrar em contato com este meio de informação poderá interagir e participar da construção da notícia. Em suma, gostaria de experimentar, nesta reportagem sobre os serviços de saúde em São Paulo, algumas práticas relacionadas ao que se tem chamado de jornalismo colaborativo.

Se quiser parar a leitura por aqui, peço que volte a este blog mais tarde, veja se o que estou escrevendo sobre serviços de saúde é de seu interesse, se tem algo que desejaria contar, e escreva no espaço para comentários! E para entender um pouco mais sobre trabalho, continue a leitura deste post.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Vila Madalena - Espera (será que este título se repetirá neste blog?)

Dois dias depois, fui buscar minha carteirinha do SUS. A atendente de óculos e jaleco verde estava lá. Lembro a ela que quando fiz o cadastro, não foi possível imprimir a carteirinha porque a impressora estava quebrada. Passo meu número de registro que estava anotado num papel, ela digita no computador e... “Não está imprimindo de novo. Acho que é com você, viu?!”. “Deve ser. Ela não quer fazer a carteirinha pra mim”, respondi.

Alguns ajustes no cartucho e finalmente sai a etiqueta adesiva com meus dados impressos. Ao meu lado, uma mulher tenta marcar uma consulta, pedindo informações para a sempre requisitada atendente. “Só lá para o meio de março!? E eu vou ter que ficar com a dor!?”, reage a paciente ao ser informada que a data mais próxima disponível para um atendimento médico estava uns 15 dias distantes. “Você vê, vim aqui na semana passada. Se já tivesse marcado, não precisaria esperar tanto”, diz para mim, puxando conversa. Para seu alívio, uma data mais próxima para a consulta é encontrada no caderno.

Com carteirinha na mão e esperando pela visita da agente comunitária que irá até a minha casa, fico pensando o porque da realização de uma reportagem ali, num posto de saúde. As coisas funcionam, a mulher conseguiu sua consulta mais cedo como queria, e problemas com uma impressora podem acontecer em qualquer lugar. Todavia, muitos diriam que motivos não faltam para se averiguar o que acontece nos serviços públicos de saúde de São Paulo. Filas para conseguir uma consulta, postos lotados e dificuldade de acesso a hospitais devido a grandes distâncias são reclamações que já ouvi. Não sei se coisa assim acontece com frequência nesse posto que visito pela segunda vez.

A atendente de jaleco verde está sempre lá, atenciosa e super requisitada. E as reclamações dos pacientes no balcão do posto em que ela trabalha também. Dois dias atrás, o homem com a mulher grávida querendo um médico. Agora, a mulher que quase não consegue data próxima para uma consulta. 'Espera' parece ser a sina do usuário da saúde pública. Algo que também ouço muito dizer.

Conto minha experiência nesses rápidos momentos no postinho da Vila para minha irmã, estudante de psicologia que fez estágio em alguns postos e hospitais públicos da cidade. “Olha que este aí que você foi é cinco estrelas, comparado com outros que existem por aí”, advertiu ela.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Vila Madalena - A impressora quebrada, o sistema lento e a história do médico que tirou foto com um cachorro da rua e colocou no Orkut


Na rampa de acesso à entrada, cruza comigo um rapaz com a mão enfaixada. Placas robustas de metal prezas na parede trazem inscritos os nomes 'Secretaria de Higiene e Saúde' e 'Departamento Municipal de Assistência à Infância e à Maternidade'. Levo um susto quando, ao entrar, de pronto me atende o segurança. Ele pergunta alto: “O que você quer?”. “Fazer a carteirinha do SUS”, respondo. Pelo uniforme, vê-se que é de uma empresa privada. Mas ajuda em outras funções além da sua. É ele quem informa onde posso aguardar e quais documentos devo ter em mãos: “Cópia do RG, CPF e comprovante de residência”.

Uma mulher de rosto magro, óculos e rabo de cavalo mexe no mouse do computador enquanto responde às perguntas de um casal. Os dois, de pé, do lado de cá do balcão. O homem é quem mais fala:

“Quantos médicos têm?”
“São quatro. Mas um médico atende.”
“E os auxiliares?”
“Cada médico tem um auxiliar.”
“E o auxiliar atende?”
“Primeiro passa pelo auxiliar depois vai para a consulta.”

Meu objetivo é fazer uma reportagem. Impressiono-me com o sujeito questionador, assertivo em suas perguntas. Deveria agir assim? E ir além, anunciar que estou fazendo uma apuração jornalísitica, que procuro saber tudo que acontece com o serviço de saúde oferecido ali para as pessoas? Me limito a observar. E a esperar e puxar conversa.