Entrada do PS do Hospital do Campo Limpo, na rua Teresa Mouco de Oliveira, esquina com a Estrada de Itapecerica |
O relato sobre o caso do Ronaldo foi feito por Vera Doras dos Santos, sua namorada. A Vera tinha me dado um depoimento sobre os serviços dos postos de saúde que utiliza e sabia que eu estava atento aos problemas dessa área. Na quinta-feira, dia 26, ela me procurou para contar o que acontecia com o Ronaldo. Estava indignada com o que vira na noite em que visitou o namorado. "Ele está num quarto com várias pessoas. As funcionárias anotam as coisas num papel toalha, dizendo que é mais fácil fazer registros assim. Dois homens entraram baleados, com todo mundo olhando. É um caos, e o Ronaldo não sabe quando vai sair de lá". Eu disse para ela que poderia fazer uma visita ao Ronaldo. "Vai lá, ele está com um celular, dá para tirar umas fotos. E quem sabe não resolvem o problema dele".
Para Vera, uma reportagem sobre esse cenário poderia ter diversos efeitos. Um deles seria dar publicidade a uma situação de deficiência na assistência médica do hospital. Os problemas, testemunhados por Vera, são visíveis na morosidade do atendimento aos pacientes em estado de emergência - como Ronaldo -, na falta de espaços para acomodar melhor e separar visitantes e pacientes em estado grave, e na inexistência de material básico, como papel para anotações. A Vera também disse algo sobre falhas de funcionários. Uma enfermeira teria se esquecido de dar um remédio para uma criança, precisando ser lembrada pela mãe.
Outro efeito da reportagem seria uma possível aceleração do atendimento do Ronaldo. Vera acredita que uma reportagem jornalística, que se propusesse a mostrar problemas no atendimento do hospital público, poderia pressionar a administração do hospital a apresentar uma solução com maior rapidez.
Na lanchonete, uma reação à reportagem
Fui visitar o Ronaldo no sábado. Na recepção do pronto-socorro, me avisaram que o horário de visita era às quatro horas da tarde e às oito da noite. Apenas uma pessoa pode visitar um paciente internado na emergência e a visita tem duração de meia hora. Enquanto esperava, dei uma volta pelo local. Junto ao Hospital Municipal do Campo Limpo fica uma AMA - Ambulatório Médico de Especialidades.
Percebi que a AMA possui um letreiro com o logo do hospital Albert Einstein. O logotipo também aparece no jaleco de algumas funcionárias. Segui duas mulheres de jaleco que, dando uma pausa no trabalho, se dirigiam à lanchonete do outro lado da rua. Puxei conversa, e uma delas me explicou que a AMA faz a triagem de casos a serem tratados no hospital e que só ela possui parceria com o Einstein.
O Hospital do Campo Limpo atende diversas especialidades, como saúde mental, psiquiatria, pediatria, maternidade. Possui UTI e pronto-socorro, com atendimento dividido entre adulto e criança. Contei o caso do Ronaldo para as duas funcionárias na lanchonete. Elas disseram que provavelmente ele seria transferido para o hospital regional, que fica em Santo Amaro. Perguntei se esse hospital era maior, e elas responderam que não, que ele apenas tem mais especialidades. "Não sei se tem cirurgia ortopédica aqui no Campo Limpo", disse uma delas.
Aproveitei para falar do trabalho que estou realizando, com reportagens sobre a situação da saúde pública. Senti que elas reagiram com certo medo. Era como se desconfiassem se um trabalho desse tipo poderia trazer algum benefício, ou se apenas comprometeria coisas como, por exemplo, o trabalho delas. Disseram que não sabiam de nenhum caso de problemas com o atendimento de pacientes. "Na nossa área tudo funciona bem". Elas atuam na clínica médica.
A espera do lado de fora
A entrada para o hospital do Campo Limpo fica em uma ladeira que sai da Estrada de Itapecerica. Na calçada, vendedores de doces, pipoca e refrigerantes estacionam seus carrinhos e isopores um ao lado do outro. O complexo médico possui três ou quatro recepções - a do pronto-socorro, a da AMA e outras destinadas para quem aguarda a realização de exames diversos. Para se deslocar entre elas, é preciso passar pela área externa. A sala de espera da AMA fica ao lado da sala do PS. As áreas destinadas a exames ficam no fundo de um pátio comprido.
Em bancos de pedras na parede do canto do complexo médico, pessoas sentam-se para esperar os pacientes que acompanham. Muitos com sacola de exame na mão, conversam, trocam a fralda de um bebê, fumam. Faz frio e o movimento é grande. E chama a atenção o fato de pacientes terem de se deslocar de uma dependência para a outra pela área externa, sem acompanhamento nenhum, as vezes pulando numa perna só, com faixa na cabeça ou andar trôpego.
Aproxima-se a hora da visita. O saguão do PS nunca está lotado, mas fica bastante movimentado nessa hora. Forma-se uma fila para que as pessoas peguem um pedaço de papel que identifica o paciente que vão visitar. Do outro lado do balcão, entram pela porta da emergência pacientes em macas descarregadas das ambulâncias. Viaturas da polícia entram e saem do hospital a todo momento. Minutos antes das quatro da tarde, dois policiais militares se identificavam ou faziam algum registro no balcão enquanto um rapaz algemado esperava de pé para dar entrada no hospital. Aliás, ambulâncias da SAMU e da emergência dos bombeiros chegam a todo instante. Não há correria nem enxurrada de pacientes. Mas há é um grande movimento no hospital.
Seu Silvino e o Jornalismo
Fiz o registro de minha visita, mas alertei o homem da recepção que poderia chegar algum parente do Ronaldo. Eu não conhecia os parentes dele. Tinha o receio que, no horário que fosse visitá-lo, chegasse algum familiar também querendo vê-lo. Antes da visita, liguei para o Ronaldo, conversei com ele e ele disse que não sabia se viria mais alguém, mas que eu podia subir. Para entrar, os visitantes precisam se deslocar por fora da recepção e esperar no local onde desembarcam os pacientes que chegam de ambulância. A entrada de pacientes em estado grave e visitantes é a mesma.
Eram quase quatro horas, eu estava de pé na fila para entrar no PS, quando chega o seu Silvino. Era o tio do Ronaldo, que foi de pessoa em pessoa perguntando quem era o tal Fernando que ia visitar seu sobrinho. Expliquei que era amigo da Vera, que tinha avisado o Ronaldo sobre minha visita e que estava fazendo uma reportagem. Ele ficou zangado por não me conhecer e por eu não ter conversado com a família sobre o assunto. Disse que não sabia se a família estava de acordo com o trabalho que eu me propunha a realizar.
Perguntei se o Ronaldo não estava enfrentando problemas para ser atendido. De forma talvez um pouco resignada, ele afirmou que não era possível fazer nada com relação à situação. Disse que não se questiona uma previsão de um médico - de esperar seis dias para uma transferência - pois o médico "sabe o que fala". Insisti dizendo que era importante relatar os problemas da saúde pública, e que meu objetivo era noticiar essa espera longa. A resposta dele foi provocadora para minha pretensão jornalística: "mas que a saúde pública é uma merda, isso a gente tá cansado de saber!"
Cansados de Saber
Não visitei o Ronaldo. Mas consegui uma boa crítica do seu Silvino. Os jornais publicam com frequência matérias sobre problemas enfrentados por pacientes em postos de saúde e hospitais públicos. A maioria da população, quando precisa de uma assistência médica, muito provavelmente já sabe que enfrentará problemas. E que não serão poucos. Seu Silvino, de certa forma, expressa esse tipo de percepção. Há um pessimismo, meio resignado, meio revoltado, com relação aos serviços de saúde.
Seu Silvino demonstra o lado resignado. Como ele diz, é tudo "uma merda". E todo mundo está cansado de saber. Já a reação revoltada é mais a de Vera. Ao se entusiasmar com a possibilidade de realizar uma reportagem sobre o cenário precário com o qual se deparou no hospital público, ela também dá um sentido diferente a ideia do seu Silvino, de que todo mundo já sabe dos problemas. Talvez todo mundo saiba mesmo, mas ninguém fala.
A questão que fica, para este trabalho, é qual seria a abordagem do tema saúde, de forma que se diferenciasse da cobertura tradicional, ou que apresentasse novo olhar sobre o que a população "está cansada de saber". Ou então, que desse voz a esse conhecimento silencioso.
ATUALIZAÇÃO 1: Soube nesta quarta-feira (dia 01/06) que o Ronaldo será transferido na quinta-feira, dia 02, para o Hospital do Mandaqui, onde fará a cirurgia.
Quantos tópicos, será, teria uma lista (de absurdos naturalizados nesta sociedade) com tudo aquilo com que o brasileiro sofre, está cansado de saber e não muda nunca?
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