sábado, 12 de março de 2011

Colabore com o repórter; faça uma reportagem

“Ele não é jornalista, mas poderia ser.” Foi essa a reflexão que fiz ao ver o cidadão no posto de saúde despejando uma série de perguntas sobre o atendimento prestado ali. A 'entrevistada' era a funcionária que recebia as pessoas. E interessados em tais explicações certamente estariam todos os cidadãos que utilizam o serviço público de saúde.  

Não destaco à toa tal reflexão. Na realidade, ela deveria ser assim: “ele não é o jornalista, mas pode reportar informações que adquiriu e problemas que testemunhou de maneira a amplificar o seu relato, tornando-o conhecido pela sociedade”. Como? Bem, o depoimento do cidadão poderia embasar uma reportagem jornalística de um grande jornal, por exemplo, na qual ele seria a 'fonte' da notícia. Mas o que eu dizia era que ele próprio poderia ser 'o jornalista'. É que diferente do que seria o esperado na imprensa tradicional (a TV, o rádio, o jornal, a revista), penso na atividade jornalística feita utilizando-se os recursos da internet, com os quais é possível interagir e participar na elaboração da reportagem. Que tal a ideia : “um  blog/site/rede para escrever a mão, uma história para contar na cabeça?”.

O que quero dizer é que este trabalho não pretende se limitar às observações de um repórter, que produz a notícia apenas a partir das fontes que descobre no corpo-a-corpo no local onde é feita a reportagem. Mais do que um esforço jornalístico de uma só pessoa, o que tentarei colocar em prática é uma experiência de reportagem na qual todo cidadão que entrar em contato com este meio de informação poderá interagir e participar da construção da notícia. Em suma, gostaria de experimentar, nesta reportagem sobre os serviços de saúde em São Paulo, algumas práticas relacionadas ao que se tem chamado de jornalismo colaborativo.

Se quiser parar a leitura por aqui, peço que volte a este blog mais tarde, veja se o que estou escrevendo sobre serviços de saúde é de seu interesse, se tem algo que desejaria contar, e escreva no espaço para comentários! E para entender um pouco mais sobre trabalho, continue a leitura deste post.


Certa vez, num telejornal, um comentarista dizia que uma notícia pode ser apenas a ponta de um iceberg de acontecimentos que, pela ação da mídia, ganha dimensão e passa a ser conhecida por um grande público. Mas, veja, a notícia é só a ponta! O resto do gelo do grande iceberg de acontecimentos continua encoberto, desconhecido, no mar de gente e de coisas que é a cidade. No caso, o comentarista se referia a um assassinato de dois jovens em um bar que estava sendo bastante noticiado. Para ele, como este caso que veio à tona por meio de reportagem jornalística, dezenas de outros acontecem frequentemente, sem que a sociedade tome conhecimento deles.

Na tentativa de encurtar o caminho entre a ponta de um iceberg e a população com direito a ser informada, o próprio cidadão, diariamente em contato com os problemas que o afligem, pode ser coautor na produção da notícia. E assim, não só a ponta, mas partes maiores do iceberg poderão vir à tona.

Naquele dia, no posto de saúde, não havia nenhum outro repórter. Eu, no fundo, fazia meu cadastro no SUS como qualquer outro cidadão. Mas o homem com quem conversei, além de bom questionador, tinha boas histórias para contar. Num veículo colaborativo, suas perguntas e histórias podem ajudar o repórter, mesmo quando ele está distante da cena da reportagem. O homem poderia contá-las num espaço aberto para depoimentos - como no campo de comentários desta postagem. Interação como essa já existia na mídia tradicional antes da internet, em que cartas e telefonemas para as redações dos jornais cumpriam tal papel. Mas com certeza na internet a interação pode ser potencializada.

Como dizia, mais do que interagir, num veículo colaborativo o cidadão poderá se tornar coautor da reportagem. Recursos para isso surgem na internet a todo instante. Redes sociais é um deles. Coloque no twitter uma queixa grave contra um serviço público ou privado, uma boa história, uma foto marcante, e ajude na descoberta de novas pontas do iceberg de problemas sociais existentes na cidade! Num próximo postagem, falarei mais objetivamente quais recursos gostaria de usar nessa experiência de jornalismo. A princípio, digo apenas que, até aqui, este blog tem sido um caderno de notas de um repórter. E é para isso que ele serve. O repórter anota o que vê, o que ouve, o que pensa noticiar. E abre para quem quiser palpitar, ajudando na apuração. Contudo, a colaboração pode ir além de comentários nas postagens – apesar delas serem muito bem vindas!

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