A regra aplicada era que cada cidadão deveria utilizar o posto de saúde do seu bairro. Mas isso gerava sérios inconvenientes para quem trabalha longe de casa. Os empregados do comércio, prédios e casas de família da Vila Madalena, em sua grande maioria, saem cedo para o serviço, antes da abertura do posto, e voltam quando ele já está fechado.
Essa situação, com certeza um problema para quem a vivencia, foi uma das coisas que despertou em mim o interesse em realizar um reportagem sobre os serviços de saúde da cidade. Nesta segunda-feira conversei com a Vera Lúcia Doras dos Santos, de 51 anos, que trabalha como empregada doméstica num prédio na Vila Madalena. Ela tem dois empregos. De manhã trabalha num escritório na avenida Nove de Julho. Entre a manhã e a tarde dá conta do serviço no apartamento. E no final da tarde, termina o dia de trabalho no escritório. Mora no Jardim João XXIII, zona oeste de São Paulo, e vai de ônibus para o trabalho.
Ela contou um pouco como foi essa mudança no atendimento dos postos de saúde e deu sua opinião sobre os serviços de saúde em geral.
“Faz mais de um ano que não consigo um atendimento médico. Tenho que fazer um check-up, exame de sangue, de urina, porque estou com mais de 50 anos. E tenho problema de mioma, a cada seis meses preciso passar por consulta médica. Mas não consigo encaminhamento. Todo problema é o “bendito” encaminhamento. A espera é muito grande. E você nunca sabe para onde vão te encaminhar.
Estou tentando marcar um ginecologista e não consigo. Do posto de saúde, você é encaminhada para a Rua Santo Antônio [posto de saúde], onde estão os médicos especialistas. De lá, eles encaminham para o Pérola Byington. Mas não consegui a consulta porque não tinha vaga. Dos exames, consegui fazer a mamografia no Pérola Byington no começo do ano. Mas estou sem fazer o intravaginal. Quando fiz o papanicolau, no posto da Vila Madalena, a enfermeira me deu o exame, mas não passei por consulta com a médica. Ela falou que eu estava com um probleminha, mas que não era nada grave. E mandou eu procurar atendimento no meu bairro.
Não atendem mais neste posto daqui da Vila Madalena se a pessoa não mora no bairro. Trabalho aqui há 19 anos. Onde moro não dá tempo. Eu saio de casa de madrugada, às cinco da manhã, para trabalhar. E chego às nove da noite. Ou seja, não pego o posto aberto. Já tive que pagar amigo para marcar uma consulta pra mim. Dei dinheiro para o guarda segurar minha ficha. E mesmo assim não consegui. Para marcar uma consulta, perderia toda a manhã. Precisa chegar às nove da manhã para retirar uma senha. Daí ao meio-dia, agendar a consulta para um outro dia.
A mesma dificuldade tenho para marcar uma consulta para minha filha, de 11 anos. Se ela pudesse consultar neste posto da Vila Madalena, trazia ela e seria mais fácil pra mim. Ela está com uma infecção urinária, e também sem passar por consulta. Não consigo marcar.
Neste posto da Vila Madalena, são as enfermeiras que atendem, ao invés do médico! E falta medicamento. Este posto da Vila está com um serviço péssimo. Num bairro como a Vila Madalena, tinha que ter um atendimento melhor. E tinha que ter um Pronto-Socorro. Atendimento grave só acontece no Pronto-Socorro.
No João XXIII, as moças são simpáticas, recebem bem. Toda vez que fui lá, fui bem tratada. Lá tem o AMA ao lado do posto, o que é bom. Mas eles atendem só emergência. E por ser periferia é mais cheio, tem muito mais gente.
No posto de saúde tem muita burocracia que dificulta a vida da gente, faz a gente perder muito tempo. Você tem sempre que passar pela triagem, esperar vaga para consultas, esperar pelo encaminhamento.
Recentemente, consegui uma receita para comprar uma pomada ginecológica com a patroa de uma amiga, que tem uma clínica particular. Agora que talvez ganhe um plano de saúde no escritório onde estou trabalhando, acho que será mais fácil conseguir uma consulta.”
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